quinta-feira, 10 de março de 2016

A quarta parede em Deadpool e origem.
Era de se esperar que todo mundo ficasse feliz com a notícia de que o Deadpool, o mercenário mascarado tagarela da Marvel Comics, vai ganhar o seu filme-solo pelas mãos da Fox – e desta vez, sem aquela pavorosa conclusão vista em X-Men Origens: Wolverine, mas sim com todo o jeitão daquele teste de cena que encantou o mundo há mais de um mês, quando vazou na internet.
Deadpool é um personagem divertido, sem papas na língua, uma mistura das piadas infames do Homem-Aranha com a violência desmedida do Justiceiro e a responsabilidade, bem, de um adolescente de 15 anos com superpoderes. Mas a coisa que mais me intriga ainda é: como o estúdio vai retratar, nas telonas, um dos aspectos mais interessantes deste anti-herói – a sua relação com o leitor?
Sim, porque Deadpool fala sozinho, com sua consciência. Mas também fala com você, que está lendo o gibi. E mais: Deadpool ainda sabe que é apenas um personagens de HQs. Isso cabe numa adaptação para as telonas? Antes, vamos discutir este tipo de fenômeno, derivação de uma teoria cunhada e conhecida primariamente por quem trabalha com teatro batizada de quarta parede.
A tal da “quarta parede” (além das três que, em teoria, delimitam o espaço do palco) é uma parede imaginária que fica na frente do palco, criando uma espécie divisão entre os atores e a plateia – e condicionando o público a um papel passivo, que está ali apenas para assistir. O conceito teria surgido no século XVIII, com base nas teorias do escritor e filósofo francês Denis Diderot, que teria dito “Imaginai, na borda do teatro, uma enorme parede que vos separe da plateia; representai como se a cortina não se levantasse”.
Pense na quebra da quarta parede – que teria começado na teoria do teatro de Bertolt Brecht – como um recurso que faz com que o personagem dirija sua atenção para a plateia ou tome conhecimento de que ele e suas ações são apenas fictícias ou, como no caso de Deadpool, ambas. É algo que vai além da metalinguagem, o recurso que faz com que vejamos uma história em quadrinhos sendo desenvolvida dentro de uma história em quadrinhos ou uma série de TV filmada dentro de uma série de TV. Episodes, série que traz Matt LeBlanc (o Joey de Friends) interpretando a si mesmo como o protagonista de uma série americana inspirada numa série britânica de sucesso, é um ótimo exemplo de metalinguagem.
Quando se quebra a tal da quarta parede, você acaba com o espaço imaginário e faz com que o espectador/leitor lembre que aquilo que está diante de seus olhos é ficção, acabando com a chamada suspensão da descrença – expressão cunhada por Samuel Taylor Coleridge (aquele, de Rime of The Ancient Mariner) para se referir ao ato da pessoa que está do outro lado da obra aceitar como verdadeiras as premissas de um trabalho de ficção, “mesmo que elas sejam fantásticas, impossíveis ou contraditórias”.

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